segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Manifesto de vida e morte

Esse manifesto serve, entre outras coisas, para deixar claro que esse blog terá vida muito curta. Esse manifesto foi escrito em diversas etapas e foi concebido não só como um processo de expressão criativa, bem como empreitada emocional de luta e luto. E isso tudo em relação a mim mesmo. No momento da revisão final desse texto, se passaram já cinco meses desde o início dessa escritura.

Por muito, sustentei outro blog com uma proposta pessoal completamente diversa dessa que tento imprimir aqui hoje. O Persuasio Falsa foi sempre para mim um veículo (ou uma desculpa confortável) para eu dar vazão a minha criatividade da mesma forma que para deixar em panos claros a minha cambiante percepção das coisas que vivo. A vida como cartazes de cinema. Cenas de um filme com toda a sua beleza. Sobretudo, a vida como uma mentira.

Minha relação com a mentira a que me refiro aqui nunca teve cores de desonestidade. Por muito tempo, insisti em ver da aquilo que se vive como algo desinteressante demais, pálido demais, sem magia por demais. Nesse sentido, a mentira para mim passou a ser o mecanismo mais caro que eu jamais tive para fazer da vida uma forma de arte, como dizia Wilde. Tentar ver o que de cinema, música e literatura havia nela – para então poder experimentá-la com maior riqueza. Viver a vida aceitando ela como uma grande cazzata, como uma bela mentira bem contada. Tornei-me, então, um grande iconoclasta, um criativo obsessivo e um paranóico equilibrado.

Essa idéia, então, passou a contaminar não só a forma como eu via, sentia ou fazia as coisas, mas também passou a contaminar a percepção de mim mesmo. Pessoas incorporaram personagens, lugares se revestiram de outros signos, situações e histórias se transmutaram em enredos.

Só hoje me dou conta do peso de toda essa experiência. Mesmo sem me dar conta à época, “decidi” investir a fundo nessa proposta, de mergulhar e experimentar a vida como uma página em branco pronta para conhecer personagens, espaços e tramas. E, principalmente, pronta para ser um espaço de absoluta criação de mim mesmo e de tudo aquilo que me cerca - incluindo indivíduos e a parte deles em mim. E foi aí que eu me perdi.

Tomado por um detalhismo quase que insano - como que se cada pequena migalha devesse ser pensada e encaixada com perfeição absoluta em um conjunto de rabiscos em alto-relevo -, cada elemento dessa formatação foi pensado. Esclareço aqui apenas o elementar, no sentido de que foi o que me inspirou para seguir essa linha tanto na formatação quanto no conteúdo do blog. A imagem de fundo é de um dos pintores que mais me emocionam de todos que conheço, William-Adolphe Bouguereau, do final do século XIX. Suas obras mais reconhecidas – que coincidentemente são as que mais me emocionam – combinam uma estética realista (quase que um impressionismo pelo jogo de luz e sombra levado a perfeição paranóica a ponto de fazer aquilo saltar da tela) com temática mitológica e sacra. O que, às vezes, pode resultar em trabalhos em que o óleo da tela pinga em lágrimas da mesma forma em que podem ser tão impressionantes e envolventes pelo seu horror inaceitável.



Bouguereau tem algo de romântico. Uma vez vi uma entrevista de um crítico de arte que dizia que toda e qualquer produção artística é romântica – justamente pelo foco na emoção em si, fazendo com que tal coisa fosse idealizada durante o processo de criação estética. Ainda não sei se concordo. No entanto, sobre Bouguereau, eu definitivamente acho de alguma forma romântico. Se suas obras fossem filmes, a fotografia e a montagem trabalhariam em conjunto a fim de mergulhar no sentimento de uma cena ali retradada. Grandes seqüências de vários minutos quase que pausados, interrompendo uma ação que deveria ser ágil e fugaz, para tentar capitar a beleza (mesmo que horrenda) daquele segundo, tentando desenhar idiossincrasias e se esforçando para delinear aquela complexidade explosiva. Mas sem jamais conseguir. O mesmo plano fotografado – ou pintado em uma tela – durante muito tempo em que quase não se vêem músculos se movendo, pulmões se exaurindo ou cílios vibrando, realizando um esforço tremendo para dizer, codificar e denunciar tudo aquilo que se passa ali, naquele lugar e com aqueles retratados. Mas nunca consegue. E será sempre assim.

A obra em questão se chama Premier Deuil – e retrata a primeira manhã em que Adão e Eva, ao acordarem, se dão conta da morte de Abel, que fora assassinado pelo seu irmão Cain. Diversos elementos que permeiam tanto essa história quanto o quadro de Bouguereau me chamam a atenção e me colocam em uma situação quase que de arrepio. Em primeiro lugar, a situação da morte de Abel significa o início de uma tragédia quase que anunciada. Contudo, o que importa para mim aqui é a idéia da morte – seja enquanto fim da vida de Abel, seja pelo ato cometido por Cain ou que seja pelo sofrimento desconcertante de Adão e Eva. Enfim, no fim, a morte.

A morte, aqui, encara também um papel criador – contudo, com um sentido absolutamente diverso daquele presente em Persuasio. A idéia de morrer – e matar – com propósitos de mudança, de renascença – como no título. Essa nova concepção, que agora talvez não seja mais tão nova assim, norteou possivelmente a maior crise que eu já tive a oportunidade de experimentar, que, sem sombra de dúvida, ainda não terminou. Morrer em direção a um desconhecido, pela simples vontade de conhecê-lo. Pedaços de mim que eu definitivamente quero e preciso desvelar.

Talvez alguns se questionem dos motivos pelos quais eu tenha “decidido” enfrentar tudo isso, porque eu tenha “desejado” tão ardentemente, a ponto de aceitar cegueiras e pular em buracos muito fundos, toda essa nova concepção, essa mudança. Respondo, antes de mais nada, gritando nos ouvidos das pessoas, dizendo que eu não acredito em livre-arbítrio. Muito mais que isso, eu sequer acredito que fazemos escolhas nesse nível tão abstrato e conceitual ao qual me refiro. No Persuasio Falsa, uma vez postei um texto dizendo que a vida é tão filha-da-puta que ela se deu ao trabalho de pegarem suas mãos o tijolo da “escolha”, triturá-lo e pulverizá-lo no ar, o que faz com que cada um de nós não somente não veja pelo o quê está decidindo, bem como não nos damos conta de quando cada grão entra em nossos pulmões. De qualquer forma, respondo a esse questionamento que me fazem com a metáfora da caixa de Pandora. Pegue essa caixa nas suas mãos e me diga se você conseguiria seguir em frente sem saber o que há dentro. Foi isso o que ocorreu comigo.
E sim, eu aceito o sofrimento, eu aceito as maldições, eu aceito as dores, eu aceito as profecias apoteóticas: mas eu abro a caixa. E eu não poderia crer que deveria ser diferente.

Nesse sentido, esse processo é sim um fim em si mesmo.

O que eu almejo hoje é a experimentação. O que eu almejo hoje é a construção de algo que me tolha dos medos originários e me traga novos medos. O que eu almejo e dar vazão, da maneira mais pura, rica e livre, a esse ímpeto criativo que sempre carreguei e que, agora, percebo que não posso mais seguir em frente sem mover-me de maneira diferente.

Do Persuasio Falsa, o que resta é a minha paixão pela criação. Eu quero acreditar em toda a minha arrogância e ambição criativa, para não ser um expectador – algo que nunca me contentou. Quero ser – ou continuo querendo – ser criador em definitivo. Inclusive de mim mesmo.

Termino de redigir esse texto, gostaria que ele fosse apenas uma página em branco.